Breve história do documentário brasileiro

O documentário brasileiro é, em grande medida, a própria história do cinema no país. Desde os primeiros registros em movimento, o documentário se consolidou como um campo de experimentação estética, reflexão social e, em muitos momentos, resistência política. Apresentamos essa trajetória em cinco grandes fases, que vão das origens no final do século XIX até a consolidação contemporânea.

 

1. Origens e o Período Silencioso (1896-1930)

As primeiras produções cinematográficas no Brasil já nasceram com um forte impulso documental, focadas em registrar a vida urbana e grandes eventos. Elas refletiam o espanto da modernidade, com a câmera funcionando como um olho que capturava o “natural” da paisagem e dos costumes, valorizando a exuberância da natureza e o progresso das metrópoles.

Em 1898, o imigrante italiano Afonso Segreto filmou a Baía de Guanabara a bordo do navio Brésil, marcando o início da produção cinematográfica nacional com um forte viés de registro documental. Ainda neste período, expedições como a do Marechal Cândido Rondon foram documentadas por cineastas como o Major Luiz Thomaz Reis, produzindo alguns dos primeiros filmes etnográficos ao registrar populações indígenas . Também floresceram os cinejornais e as atualidades, que mostravam desde cerimônias oficiais até o cotidiano da elite. São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929), dirigido por Adalberto Kemeny e Rudolf Rex Lustig, é um marco do cinema urbano, inspirado no clássico Berlin: Sinfonia de uma Metrópole. O filme constrói uma visão idealizada da cidade como um centro de progresso, omitindo tensões sociais e focando na pujança econômica.

 

2. O INCE e Estado Novo (1936-1950)

A criação do Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) em 1936, durante o governo Vargas, institucionalizou a produção documental. Sob a direção do cineasta Humberto Mauro, o INCE produziu centenas de curtas com um claro propósito educativo e de integração nacional.

A produção se dividiu entre dois polos. Primeiro, um caráter científico, que exaltava as descobertas e a fauna e flora brasileiras como extraordinárias. Depois, com o fim do Estado Novo, um tom ufanista e ruralista, que buscava resgatar um Brasil tradicional, figurado no campo e em seus valores. Documentários e cinejornais eram ferramentas estratégicas do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para difundir a ideologia do regime, aproximar culturas regionais e criar uma imagem unificada da nação.

 

3. O Cinema Novo e a Resistência (1960-1980)

A virada dos anos 1960 trouxe uma revolução estética e política. Com o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, os cineastas do Cinema Novo buscaram uma linguagem própria para denunciar as desigualdades e a realidade brasileira.

 O contato com cineastas estrangeiros e a chegada de equipamentos portáteis (câmeras de 35mm, gravadores de som direto Nagra) permitiram filmar nas ruas, com luz natural e entrevistas, dando voz ao povo. Inicialmente, o documentário assumiu um tom sociológico (como em Maioria Absoluta, de Leon Hirszman) para explicar a realidade dos marginalizados . Com o endurecimento da ditadura militar pós-1964, muitos cineastas buscaram formas alegóricas e radicais para driblar a censura, resultando em obras experimentalistas como Triste Trópico (Arthur Omar) e Iracema, uma Transa Amazônica (Jorge Bodanzky).

 

Com a abertura política no final dos anos 1970, veio um ciclo de revisão histórica. Obra máxima desse período é Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho. Começado em 1962, o projeto foi interrompido pelo golpe militar e retomado 20 anos depois, num estilo inovador em que Coutinho confronta os antigos personagens com o filme não realizado, criando um dos mais profundos retratos do Brasil e consolidando sua carreira.

 

4. A Expansão e as Novas Narrativas (1990-2010)

Após um período de estagnação no início dos anos 1990, o documentário brasileiro renasceu com força, impulsionado pelas novas tecnologias digitais e pela parceria com a TV a cabo. A câmera tornou-se mais acessível e a linguagem, mais íntima e reflexiva.

 Além de Eduardo Coutinho, que se consagrou com obras como Edifício Master (2002), uma nova geração explorou o documentário em primeira pessoa e temas urbanos. João Moreira Salles, por exemplo, dirigiu Notícias de uma Guerra Particular (1999), sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. A TV também se tornou um veículo importante para grandes sínteses da formação nacional, como a série O Povo Brasileiro (2012), dirigida por Isa Grinspum Ferraz, que adaptou a obra monumental de Darcy Ribeiro para a televisão, com um elenco de peso e uma narrativa sinfônica.

 

5. O Documentário Contemporâneo (2010-presente)

O documentário brasileiro contemporâneo é marcado pela pluralidade, rompendo com formatos tradicionais ao abraçar diferentes abordagens, desde a encenação e o ensaio até o cinema de arquivo, docs musicais e seriados true crime. Em vez de apenas observar a realidade, cineastas focam em temas urgentes, como questões identitárias, políticas e sociais, atuando ativamente como dispositivos de provocação. 

Ao mesmo tempo que observamos uma retomada da abordagem observacional no qual as personagens contam suas próprias versões de si mesmas com “Domésticas” (2012) de Gabriel Mascaro também conhecemos Elena (2012) e Democracia em Vertigem (2019),  de Petra Costa, que apresenta um olhar ensaístico, mais subjetivo e intimista, que a realizadora se coloca como personagem central de sua própria investigação. Com Martírio” (2016) de Vincent Carelli e “Torre das Donzelas” (2018) de Susanna vemos um foco agudo nas mazelas sociais reconstruído por memórias pessoais e coletivas.

A produção mais recente se caracteriza por abrir espaço para narrativas que partem de diferentes recortes sociais, étnicos e geográficos, dando voz a quem historicamente foi silenciado. Em um momento histórico marcado por disputas narrativas e circulação massiva de informações, o documentário brasileiro tornou-se não apenas um registro da realidade, mas um espaço de reflexão crítica sobre quem produz as imagens, quem conta as histórias e quais versões do país serão preservadas para o futuro.