As principais etapas de produção de um curta-metragem

Produzir um curta-metragem envolve muito mais do que filmar uma boa ideia. O cinema é uma arte coletiva e industrial ao mesmo tempo, organizada em etapas que estruturam o processo criativo e viabilizam a realização. 

Tradicionalmente, a produção de um filme se divide em desenvolvimento, pré-produção, produção, pós-produção e distribuição. Essa divisão aparece em livros manuais como Film Art (David Bordwell & Kristin Thompson) e em guias de produção independentes contemporâneos. Embora o curta tenha escala reduzida em relação ao longa, suas etapas estruturais são as mesmas. 

Independentemente do tamanho da produção, é sempre importante ter em mente as etapas abaixo:

 

1. Desenvolvimento

Antes da pré-produção iniciar, existe uma etapa anterior muito importante: o desenvolvimento. Nesse momento se inicia e finaliza a escrita do roteiro, se faz pesquisa estética e se define do conceito fílmico. É aqui que o projeto ganha sua identidade criativa. Em casos de documentário, por exemplo, nessa etapa se faz a pesquisa de personagem, visita a locações e pré-entrevistas. 

É nessa etapa também que muitos projetos podem se transformar e se desdobrar em outros produtos futuros, por exemplo. É o caso Whiplash (2013), de Damien Chazelle e A História da Eternidade (2014), de Camilo Cavalcante, ambos começaram como curtas-metragens e foram realizados para testar a potência dramática antes da expansão para o formato maior, de longa-metragem.

 

2. Pré-produção

Essa é a fase estratégica. Tudo é planejado para que o set funcione com eficiência.

Aqui as principais equipes já iniciam no projeto, como as direções dos departamentos. Juntos, trocam informações com direção para tomarem decisões como: análise técnica, plano de filmagem, locações, casting e orçamentos.

Uma pré-produção bem feita reduz improvisos desnecessários, organiza o tempo e programa todas as equipes a trabalharem com a maior eficiência possível. Traduzindo: minimiza problemas para gastar menos dinheiro. Um caso emblemático de pré-produção desorganizada foi o longa Apocalipse Now (1972), de Francis Ford Coppola. 

 

3. Produção 

É a execução do planejamento, em caso de filme, a filmagem em si. Envolve todos os departamentos, como direção, fotografia, som direto, arte, produção executiva e etc. Mesmo filmes que parecem espontâneos, como Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, tiveram um planejamento rigoroso antes de irem pro set de filmagem. Mesmo com todo planejamento de pré, é bem comum problemas inesperados ocorrerem. Então é preciso sempre ter calma e saber se organizar diante de um caos inesperado.

 

4. Pós-produção

É na montagem que o filme encontra sua forma definitiva. Como afirmava Walter Murch, montador de Apocalypse Now (1972) de Francis Ford Coppola, a montagem é onde o filme “aprende a respirar”. Essa etapa inclui o trabalho de diversos profissionais, como: Montagem, Design de som, Composição de música original, Efeitos especiais, Correção de cor e Finalização. A Direção do filme acompanha esse processo muito de perto. Tem diretores que até fazem o primeiro corte do filme para demonstrar melhor sua visão.

Vale lembrar que essa etapa começa na pré-produção! Toda a equipe de pós geralmente é contratada cedo pois têm muito a contribuir para um pós de maior qualidade e precisão. Há casos em que a equipe de edição vai para o set para direcionar melhor a execução de algumas cenas, por exemplo, já pensando na montagem. 

Em projetos grandes, existe uma equipe que supervisiona e coordena essa etapa desde a pré. Isso organiza e otimiza toda a cadeia de produção, pois dependendo do tamanho do projeto (como longa e série), o material filmado vai passar por diversas empresas, profissionais e “casas” de pós, como Lab Digital, VFX (efeito especial) e Finalização. Então, é importante definir muito bem todo o fluxo de material desde a pré-produção para evitar problemas na pós.

 

5. Distribuição

A distribuição é frequentemente esquecida em projetos iniciantes, mas é parte essencial do ciclo do filme, que só se completa quando encontra um público. A distribuição envolve estratégia, posicionamento e escolha do circuito mais adequado para o universo do filme. Por exemplo, um filme documentário de temática ambiental tem mais chances de ser selecionado em festivais de curta, de documentário e de temática ambiental.

Geralmente, o curta-metragem passa por festivais, cineclubes, streaming e por fim é aberto em uma plataforma aberta e gratuita, como o Youtube ou Vimeo.

 

Festivais de cinema

O ciclo de festivais geralmente dura 2 anos, pois é o tempo que geralmente as plataformas pedem no momento da inscrição do filme. Então é super importante aproveitar ao máximo essa janela para se inscrever no máximo de festivais de cinema possível. No Brasil destacam-se o Festival de Brasília, Festival do Rio, Festival Curta Cinema e Mostra de Tiradentes como importantes espaços de visibilidade e reconhecimento. Internacionalmente se destacam o Festival de Berlim, Festival de Cannes, Festival de Berlim e Ferstival de Veneza, por exemplo. A estratégia de estreia (premiere status) pode influenciar muito a trajetória do filme, abrindo novas portas para festivais aceitarem em suas programações. Por isso é sempre bom tentar estreiar num festival mais longevo e reconhecido.

Existem duas formas principais de inscrição: 1) plataformas online, como o FilmFreeWay (gratuito e pago), Shotfilm Depot (pago) e Festhome (pago) nos quais você inscreve o filme uma vez e depois só submete aos festivais; e 2) inscrições diretas nos sites dos festivais. Uma dica de ouro é o perfil do instagram “To dentro festivais”, que cataloga diversos festivais com inscrições abertas.

 

Circuito educacional e cineclubista

Existem muitos projetos que apostam na chamada “distribuição de impacto”. Aqui o filme é direcionado a espaços e territórios de interesse com o tema do filme, como universidades, escolas, movimentos sociais e cineclubes. Nesse caso, é preciso correr atrás de parcerias para que esses encontros possam acontecer.

 

Plataformas digitais

Após terem passado pelas etapas anteriores, o filme geralmente é direcionado a plataformas de streaming. Dependendo do alcance e relevância que o filme tomou ao longo de sua jornada, é possível pleitear licenciamento em editais como a “Mostra Sesc de Cinema” ou negociar com canais como Canal Brasil para que o filme possa ser exibido na TV por um período de tempo.

E por fim, o filme geralmente é aberto em plataformas de vídeos gratuitas como YouTube e Vimeo. Aqui o filme “fecha” seu ciclo.