O caminho do Brasil no Oscar
O filme selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para o Oscar 2027 foi “Feito Pipa”, longa dirigido pelo cearense Allan Deberton. O filme foi escolhido entre 15 produções inscritas e será o representante oficial do país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional.
Mas a edição de 2027 terá uma particularidade importante. Pela primeira vez, a escolha brasileira não é necessariamente o único caminho para que um filme em língua não inglesa chegue à disputa pelo Oscar. Mudanças nas regras da Academia criaram uma nova rota de elegibilidade relacionada aos principais festivais internacionais.
Para entender o que isso significa, é preciso voltar um pouco e conhecer como funciona a presença brasileira na premiação.
Feito Pipa e a pré-seleção
Dirigido por Allan Deberton, o longa foi escolhido pela comissão brasileira para representar o Brasil na premiação de 2027, depois de uma seleção que reuniu 15 longas. O filme chega à disputa depois de conquistar dois prêmios: Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional no Festival de Berlim. Esse feito deu ao filme uma importância ainda maior diante das novas regras do Oscar.
A seleção brasileira, entretanto, não aconteceu sozinha. Outros cinco filmes chegaram à fase final da pré-seleção e ajudam a mostrar a diversidade da produção cinematográfica brasileira contemporânea. Entre eles estava “100 Dias”, primeiro longa-metragem em live-action de Carlos Saldanha, que acompanha a travessia do navegador Amyr Klink pelo Atlântico Sul e transforma a experiência de isolamento em uma narrativa sobre solidão e autoconhecimento.
Também estava “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, diretor de “Marte Um”. O filme acompanha uma mulher de 75 anos que, depois da morte do filho motorista em um acidente de ônibus, procura as famílias das vítimas em uma jornada relacionada ao luto e ao perdão.
“Nosso Segredo”, dirigido por Grace Passô, chegou à seleção depois de receber prêmios no Festival de Gramado, enquanto “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, apresenta um documentário sobre meninas do sertão do Piauí, seus sonhos e as transformações sociais ao seu redor. Completava a lista “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, drama centrado em amizade, amadurecimento e nos dilemas enfrentados por jovens meninas.
A lista é reveladora por outro motivo: a disputa pelo Oscar também funciona como um retrato da variedade de formatos, regiões, temas e linguagens que compõem o cinema brasileiro contemporâneo.

Novas regras no Oscar 2027
A edição de 2027, correspondente à 99ª cerimônia do Oscar, apresenta mudanças significativas nas regras de elegibilidade. Entre elas está uma alteração particularmente importante para os filmes internacionais. Até então, cada país podia apresentar oficialmente apenas um filme à categoria de Melhor Filme Internacional.
A partir de 2027, passam a existir dois caminhos possíveis para um filme em língua não inglesa chegar à disputa. O primeiro é o modelo tradicional: o país escolhe seu representante oficial. É o caminho seguido pelo Brasil com “Feito Pipa”.
O segundo é a chamada “rota dos festivais oficiais”. Pelas novas regras, um filme em língua não inglesa que conquistar o principal prêmio de determinadas competições internacionais poderá obter elegibilidade automática para a categoria, independentemente de ter sido escolhido pelo comitê de seu país.
Entre os festivais e prêmios qualificatórios estão:
- Berlim — Urso de Ouro
- Cannes — Palma de Ouro
- Veneza — Leão de Ouro
- Toronto — Platform Award
- Sundance — Grande Prêmio do Júri da Competição Internacional
- Busan — Melhor Filme
Na prática, isso significa que um país poderá ter mais de um filme elegível na categoria. No caso brasileiro, por exemplo, “Feito Pipa” chega pelo caminho tradicional, enquanto outros filmes brasileiros podem buscar a elegibilidade através do circuito de festivais, caso cumpram os critérios estabelecidos. Essa mudança amplia a importância dos festivais internacionais no caminho até Hollywood. A alteração também muda uma ideia que durante muito tempo esteve associada ao Oscar de Filme Internacional: a de que cada país teria um único representante.
Agora, a trajetória internacional de um filme pode ter peso próprio. Isso é especialmente relevante para cinematografias que não possuem grandes estruturas de distribuição internacional. Um filme pode conquistar reconhecimento em um grande festival e, a partir desse resultado, entrar diretamente no radar da Academia.
O próprio material aponta que a mudança pode permitir situações em que um segundo filme de determinado país se torne elegível caso conquiste um dos prêmios qualificatórios. Para o cinema brasileiro, isso significa que festivais passam a ser ainda mais importantes como parte da estratégia internacional de um filme.
Campanha até o Oscar
Ser elegível não significa ser indicado. Depois de entrar no processo da Academia, o filme ainda precisa atravessar diferentes etapas de votação. É aí que entra uma parte menos conhecida pelo público: a campanha de Oscar. Hollywood possui uma indústria especializada em promover filmes durante a temporada de premiações. Distribuidoras, produtores e empresas de relações públicas desenvolvem estratégias para apresentar seus filmes aos integrantes da Academia e fazer com que eles sejam vistos e lembrados durante o período de votação.
Isso pode envolver sessões especiais, eventos, entrevistas, encontros com integrantes da equipe, presença em festivais, publicidade especializada e materiais de divulgação direcionados aos votantes. É nesse contexto que aparece a expressão For Your Consideration, geralmente abreviada como FYC. São materiais produzidos especificamente para apresentar um filme e destacar as categorias nas quais seus responsáveis desejam ser considerados. Uma campanha pode chamar atenção para a direção, roteiro, fotografia, montagem, atuação, música ou filme internacional.
Durante a chamada Awards Season (Temporada de Premiações, que vai de outubro a janeiro), as distribuidoras de cinema deixam de focar apenas no público geral e passam a gastar milhões de dólares mirando um público muito restrito: os cerca de 10.000 membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
As campanhas de FYC se manifestam de várias formas:
- Anúncios Impressos e Digitais: Páginas inteiras em revistas influentes de Hollywood (como The Hollywood Reporter e Variety) estampando o pôster do filme com a frase “For Your Consideration” no topo, seguida por uma lista das categorias em que o filme quer competir (Ex: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz).
- Plataformas de Streaming Exclusivas (Screeners): Antigamente, os estúdios enviavam DVDs físicos para a casa dos votantes. Hoje, a Academia possui uma plataforma de streaming fechada e segura (a Academy Screening Room), onde os estúdios pagam taxas altíssimas para hospedar seus filmes e disponibilizá-los aos membros.
- Festas, Coquetéis e Painéis: Os estúdios organizam exibições luxuosas seguidas de debates (Q&As) com o diretor e o elenco. O objetivo é fazer com que os votantes conheçam as estrelas pessoalmente, criando uma conexão emocional que se converta em votos.
Uma campanha pesada de FYC para um filme de grande porte pode custar entre US$ 5 milhões e US$ 20 milhões. Os estúdios fazem esse investimento porque o selo de “Indicado ao Oscar” ou “Vencedor do Oscar” valoriza imensamente a produção, multiplicando a bilheteria, o número de assinaturas em plataformas de streaming e o prestígio dos envolvidos para projetos futuros.
Para evitar que os estúdios ricos simplesmente “comprem” os votos com jantares caros e presentes, a Academia possui um manual de regras extremamente rígido sobre o que pode e não pode ser feito nas campanhas de FYC. Por exemplo:
- É estritamente proibido enviar presentes, cartas emocionais ou fazer ligações diretas para os votantes implorando por votos.
- Os convites para eventos de FYC não podem incluir jantares extravagantes ou open bar exagerados.
- Nenhum anúncio de FYC pode citar ou falar mal de filmes concorrentes.
O objetivo não é simplesmente dizer que determinado filme é bom. É colocá-lo em circulação dentro do ecossistema de votação da Academia. Por isso, uma indicação ao Oscar envolve muito mais do que a existência de um filme artisticamente reconhecido. Distribuição internacional, calendário de lançamento, presença em festivais, acesso aos votantes, relações públicas e capacidade de campanha também fazem parte desse percurso.
Outras categorias
Existe ainda uma diferença importante entre a categoria de Melhor Filme Internacional e outras categorias do Oscar. Segundo as informações reunidas no material, produtores e estúdios podem inscrever diretamente filmes brasileiros em categorias como Melhor Documentário, Melhor Animação e categorias de curtas-metragens, sem depender da escolha da Academia Brasileira de Cinema.
Isso já produz consequências concretas para a temporada de 2027. Os documentários brasileiros “Sagrado, Um Filme de Medo” e “Os Arcos Dourados de Olinda”, por exemplo, conquistaram elegibilidade direta para a disputa de documentário após vencerem o festival É Tudo Verdade. Assim, a presença brasileira no Oscar pode acontecer simultaneamente em diferentes categorias e por caminhos diferentes.

Outras mudanças nas regras
A edição de 2027 também apresenta alterações que vão além da categoria internacional. Uma delas diz respeito à própria autoria do prêmio de Melhor Filme Internacional. Historicamente, a estatueta era associada oficialmente ao país de origem. A nova regra estabelece que o prêmio pertence ao filme, sendo recebido pelo diretor em nome da equipe criativa. O nome do cineasta passa a aparecer diretamente na identificação da estatueta.
Outra mudança envolve a utilização de inteligência artificial. As novas diretrizes estabelecem restrições relacionadas ao uso de IA generativa, especialmente em categorias de atuação e roteiro. No caso das performances, apenas interpretações realizadas por seres humanos são elegíveis, enquanto os roteiros concorrentes às categorias de roteiro devem ter sido escritos integralmente por humanos, com possibilidade de auditoria do processo criativo pela Academia.
Também houve uma mudança nas regras de atuação: a partir dessa edição, um mesmo ator ou atriz pode ocupar duas vagas na mesma categoria caso tenha duas performances que estejam entre as cinco mais votadas. São alterações que mostram como o Oscar tenta responder às transformações pelas quais a própria indústria cinematográfica vem passando.
Brasil: uma história de quase oito décadas
A presença brasileira no Oscar começou muito antes de existir uma categoria específica para filmes internacionais. O primeiro brasileiro indicado à premiação foi o compositor Ary Barroso, em 1945, pela canção “Rio de Janeiro”, para o estadunedense “Brazil” (1944). A história do cinema brasileiro na premiação ganhou novos capítulos nas décadas seguintes, especialmente com o crescimento do cinema nacional no circuito internacional.
“O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, tornou-se o primeiro filme brasileiro indicado à categoria de Melhor Filme Internacional, em 1963. Décadas depois, vieram outras indicações importantes, como “O Quatrilho”, de Fábio Barreto, em 1996, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, em 1998.
Em 1999, “Central do Brasil”, de Walter Salles, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Fernanda Montenegro também recebeu uma indicação a Melhor Atriz por sua atuação no longa.
Poucos anos depois, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, alcançou quatro indicações no Oscar de 2004: direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia. O filme não foi indicado à categoria de Melhor Filme Internacional, mas sua presença em quatro categorias demonstrou a capacidade de uma produção brasileira alcançar posições importantes dentro da premiação. Outro marco veio com “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, indicado a Melhor Documentário em 2020.
E então veio “Ainda Estou Aqui”.

A primeira vitória brasileira
Em 2025, o Brasil conquistou sua primeira estatueta oficial do Oscar com “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, vencedor da categoria de Melhor Filme Internacional. A vitória representa um momento histórico para o cinema brasileiro e encerra uma longa espera iniciada ainda nas primeiras décadas da participação do país na premiação.
O caminho até Hollywood, entretanto, continua sendo uma trajetória muito maior do que uma única noite. De Ary Barroso a Walter Salles, passando por Anselmo Duarte, Fábio Barreto, Bruno Barreto, Fernando Meirelles, Petra Costa e tantos outros realizadores e profissionais brasileiros, a história do país no Oscar é também a história da internacionalização do nosso cinema.
