O terror brasileiro: entre o fantástico, o medo e a realidade
O que assusta o Brasil? A pergunta parece simples, mas talvez seja justamente ela que ajude a entender por que o cinema de terror brasileiro é tão particular. Em um país marcado por desigualdades sociais, violência, conflitos religiosos, racismo, heranças coloniais, grandes diferenças entre o campo e a cidade e uma enorme diversidade de mitos e tradições populares, o medo pode assumir muitas formas.
Por isso, o terror brasileiro nunca precisou depender exclusivamente de vampiros, zumbis ou casas mal-assombradas. Nossos filmes frequentemente encontram o horror em lugares muito mais próximos: dentro de uma família, em uma relação de poder, em uma cidade violenta, em uma instituição religiosa, em uma memória traumática ou nas próprias contradições da sociedade.
Essa característica acompanha o cinema brasileiro há décadas. Mesmo quando o gênero não era reconhecido ou valorizado pela indústria, realizadores encontravam maneiras de trabalhar o fantástico, o sobrenatural e o macabro dentro de outros formatos, como a comédia, o melodrama, o cinema policial e o chamado cinema marginal.
Antes do terror como gênero
O cinema brasileiro desenvolveu uma relação com o fantástico muito antes de consolidar uma tradição de filmes de terror propriamente dita. Histórias populares, lendas, manifestações religiosas e personagens sobrenaturais sempre fizeram parte do imaginário cultural brasileiro, mas sua presença no cinema muitas vezes apareceu misturada a outros gêneros. Isso ajuda a explicar uma característica importante do horror nacional: ele raramente se desenvolveu de maneira completamente isolada. O fantástico brasileiro frequentemente se mistura à comédia, ao drama, à crítica social, ao erotismo, ao policial e à experimentação. Em vez de simplesmente reproduzir modelos estrangeiros, muitos realizadores encontraram no contexto brasileiro uma maneira própria de construir o medo.
E essa busca ganha uma figura central a partir dos anos 1960: José Mojica Marins. Com À Meia-Noite Levarei Sua Alma, de 1964, Mojica apresentou ao público um personagem que se tornaria um dos maiores símbolos do cinema de horror nacional: Zé do Caixão. Mas a importância de Mojica vai muito além da criação de um personagem. Seus filmes demonstravam que era possível produzir terror no Brasil utilizando recursos limitados, soluções artesanais e uma estética própria. O cineasta transformava restrições de produção em linguagem.
Zé do Caixão também não era simplesmente uma versão brasileira de um monstro estrangeiro. Sua relação com a morte, a religião, a violência, a moralidade e a obsessão pela continuidade da vida refletia elementos muito presentes no imaginário brasileiro. Mojica ajudou, portanto, a provar que o terror poderia ser produzido no Brasil sem precisar deixar de ser brasileiro.

Quando o horror encontra a realidade
Essa relação entre terror e realidade se torna ainda mais interessante quando observamos a história política e social do país. Durante períodos de repressão e violência política, especialmente durante a ditadura militar, o cinema brasileiro desenvolveu diferentes estratégias para falar sobre aquilo que não podia ou não queria ser representado diretamente. O absurdo, a violência, a deformação e a ruptura com a lógica realista também poderiam funcionar como formas de expressão.
Nesse contexto, o horror pode ser entendido não apenas como um gênero destinado a provocar sustos, mas como uma linguagem capaz de representar aquilo que uma sociedade considera insuportável. É uma característica que dialoga com experiências do Cinema Marginal, com o cinema fantástico e com diferentes manifestações do cinema de gênero produzido fora dos modelos industriais tradicionais. O monstro, nesse caso, pode ser sobrenatural. Mas também pode ser uma sociedade violenta, uma instituição opressora ou uma realidade que parece absurda demais para ser representada de maneira convencional.
Durante muito tempo, o cinema brasileiro valorizou determinados gêneros e formas de produção em detrimento de outros. O terror, assim como a ficção científica, o policial e outros gêneros populares, muitas vezes foi tratado como um território menor diante do cinema considerado mais “sério” ou autoral.
Essa separação, porém, é artificial. O gênero é uma ferramenta narrativa. Ele pode servir para divertir, assustar e criar suspense, mas também pode discutir política, relações familiares, desigualdade, identidade, memória e violência. É justamente essa possibilidade que ganha força em uma nova geração de realizadores brasileiros.

O medo brasileiro
Um dos caminhos mais interessantes do terror contemporâneo brasileiro é aquele em que o sobrenatural deixa de ser necessariamente o centro da ameaça. Em O Animal Cordial (2017), de Gabriela Amaral Almeida, por exemplo, uma situação de violência dentro de um restaurante se transforma em uma experiência cada vez mais brutal. O filme utiliza elementos do horror e do suspense para investigar relações de poder, medo, classe e violência.
A força da obra está justamente na maneira como o horror nasce de uma situação reconhecível. Não precisamos de uma criatura sobrenatural para sentir medo. Basta perceber que determinadas relações sociais podem se transformar rapidamente em situações de ameaça. Esse tipo de abordagem aproxima o terror brasileiro de uma tradição em que o gênero funciona como uma espécie de lente de aumento: ele exagera determinadas situações para revelar aquilo que já estava presente na realidade.
Outro exemplo importante é As Boas Maneiras (2017), dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra. O filme mistura horror, fantasia, musical e drama para contar uma história atravessada por questões de classe, maternidade, desejo, preconceito e exclusão. A criatura sobrenatural existe literalmente dentro da narrativa, mas sua presença também permite discutir questões profundamente humanas e sociais.
É uma estratégia recorrente no cinema de horror: transformar o monstro em alguma coisa maior do que ele mesmo. O lobisomem pode ser uma criatura fantástica, mas também pode carregar discussões sobre marginalização, identidade, violência ou transformação. O fantasma pode ser uma presença sobrenatural, mas também pode representar uma memória que insiste em permanecer. O corpo monstruoso pode expressar aquilo que a sociedade tenta esconder.

Se existe um campo ainda enorme para o cinema de terror brasileiro explorar, ele está nas próprias tradições populares do país. Boitatá, Curupira, Iara, Saci, Cuca, Corpo-Seco e inúmeras outras figuras fazem parte de um imaginário muito mais amplo do que aquele normalmente utilizado pelo cinema comercial brasileiro. Mas trabalhar com essas figuras exige mais do que simplesmente transformá-las em “monstros brasileiros”.
Mitos e lendas possuem histórias, contextos culturais e relações específicas com diferentes comunidades. Uma apropriação superficial pode reduzir manifestações culturais complexas a simples elementos de decoração. Por outro lado, quando tratados com pesquisa e criatividade, esses elementos podem abrir caminhos para uma produção de horror profundamente ligada às diferentes culturas brasileiras.
Um gênero em transformação
Filmes como Morto Não Fala (2018), de Dennison Ramalho, mostram outra possibilidade do horror contemporâneo brasileiro: aproximar o sobrenatural da violência urbana e de uma realidade social reconhecível. O gênero também continua dialogando com o suspense, o thriller, o drama familiar, a fantasia e diferentes formas de cinema autoral. Essa diversidade talvez seja uma das maiores forças do terror brasileiro atual. O cinema de horror produzido no país não precisa escolher entre ser popular ou autoral, entre provocar medo ou discutir questões sociais. Essas possibilidades podem coexistir dentro do mesmo filme. E talvez seja justamente essa mistura que defina uma parte importante da identidade do gênero no Brasil.
O terror brasileiro possui uma matéria-prima particularmente rica: uma história marcada por violência e desigualdade, uma cultura popular extremamente diversa, diferentes tradições religiosas, grandes contrastes sociais, experiências urbanas e rurais muito distintas e um imaginário fantástico que ainda foi pouco explorado pelo cinema.

De José Mojica Marins às novas gerações de realizadores, o gênero passou por diferentes momentos, linguagens e formas de produção. Se antes o desafio era provar que era possível fazer terror no Brasil, hoje a questão pode ser outra: o que só o Brasil consegue fazer quando decide contar uma história de terror?
A resposta provavelmente não está apenas em criar monstros brasileiros, mas em descobrir quais são os nossos próprios medos. Porque o horror não precisa inventar uma realidade completamente diferente para funcionar. Às vezes, basta olhar com atenção para a realidade que já existe.
