5 dicas para construir bons personagens na sua história

Um bom personagem não é apenas alguém que participa dos acontecimentos de uma história. É alguém que possui desejos, contradições, limites e uma maneira particular de enxergar o mundo. Quando essa construção funciona, o espectador consegue compreender suas escolhas mesmo quando discorda delas.

No cinema, essa tarefa possui uma dificuldade adicional: diferentemente da literatura, o roteiro não pode depender constantemente da descrição dos pensamentos de um personagem. É preciso transformar sua subjetividade em ações, diálogos, silêncios, gestos e decisões que possam ser filmadas. Personagens como Dora em Central do Brasil ou Kim em Parasita são interessantes justamente porque não podem ser resumidos a uma única característica. São construções dramáticas marcadas por desejos, conflitos e transformações.

1. Descubra o que o personagem realmente quer

Uma das primeiras perguntas que um roteirista deve fazer é bastante simples: O que esse personagem quer?

O desejo movimenta a narrativa. Pode ser algo concreto, como conseguir dinheiro, encontrar uma pessoa, escapar de algum lugar, ou algo emocional, como ser amado, reconhecido ou aceito.

Em Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Dora começa sua jornada ajudando Josué a encontrar o pai. Esse é o objetivo concreto da narrativa. Entretanto, conforme a viagem avança, percebemos que existe uma transformação emocional muito mais profunda acontecendo. A relação entre os dois confronta Dora com sua própria solidão e com sua dificuldade de estabelecer vínculos afetivos. É justamente essa diferença entre objetivo externo e necessidade interna que costuma tornar um personagem interessante.

2. Dê contradições ao personagem

Pessoas reais são contraditórias. Personagens interessantes também devem ser. Uma pessoa pode ser extremamente corajosa profissionalmente e insegura emocionalmente. Pode defender determinados valores e agir contra eles quando pressionada. Pode amar alguém e, ao mesmo tempo, causar sofrimento a essa pessoa.

Um excelente exemplo aparece em Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles. Eunice Paiva precisa atravessar uma experiência brutal de violência política e, ao mesmo tempo, preservar alguma estabilidade para sua família. Sua força não elimina o medo, assim como sua capacidade de seguir adiante não significa ausência de sofrimento. É justamente a coexistência desses estados que impede que a personagem seja reduzida à figura abstrata da “mulher forte”.

A contradição produz humanidade. Um personagem sem contradições corre o risco de se transformar apenas em uma função narrativa: o herói corajoso, o vilão cruel, a mãe protetora ou o policial honesto. Quanto mais complexa for a relação entre aquilo que o personagem demonstra, aquilo que deseja e aquilo que teme, maior será sua possibilidade de surpreender o espectador sem deixar de parecer coerente.

3. Construa o personagem através de decisões

Uma ficha de personagem pode ser útil. Saber onde ele nasceu, quais músicas escuta ou qual sua comida preferida pode ajudar o roteirista a imaginar aquela pessoa. Mas nenhuma dessas informações substitui uma pergunta muito mais importante: O que esse personagem faz quando precisa escolher?

Cinema é ação. Por isso, personagens são revelados principalmente pelas decisões que tomam diante de situações concretas. Em Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, grande parte da caracterização dos moradores não depende de longas explicações sobre quem são aquelas pessoas. Nós as conhecemos progressivamente pela maneira como reagem ao desaparecimento do povoado do mapa, à chegada dos estrangeiros e, finalmente, à ameaça contra a própria comunidade. Quando o conflito se torna inevitável, as escolhas dos personagens revelam relações, valores, memórias e formas de resistência que já existiam naquele território.

Essa é uma lição importante para o roteiro: em vez de simplesmente informar uma característica, procure criar uma situação que obrigue o personagem a demonstrá-la. Em vez de escrever “João é generoso”, coloque João diante de uma situação em que ajudar alguém significa abrir mão de algo que ele realmente precisa. A escolha transforma uma característica abstrata em dramaturgia.

4. Crie obstáculos que ataquem exatamente suas fragilidades

Um obstáculo interessante não é simplesmente algo que dificulta a vida do protagonista. Os melhores conflitos são aqueles que obrigam o personagem a confrontar justamente aquilo que existe de mais delicado em sua personalidade.

Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014), de Damien Chazelle, constrói praticamente todo seu conflito dessa maneira. Andrew deseja tornar-se um grande baterista e está disposto a sacrificar quase tudo para alcançar esse objetivo. O problema é que seu desejo por excelência encontra Fletcher, professor que transforma essa ambição em instrumento de manipulação e violência.

O obstáculo, portanto, não está desconectado do protagonista. Ele cresce justamente a partir de sua maior obsessão. Se Andrew não desejasse tão intensamente ser reconhecido como músico excepcional, Fletcher não teria sobre ele o mesmo poder.

Essa relação entre desejo e obstáculo é uma ferramenta poderosa de dramaturgia. Se seu personagem possui medo de abandono, coloque-o diante da possibilidade de perder alguém. Se precisa controlar tudo, crie uma situação impossível de controlar. Se depende da aprovação das outras pessoas, obrigue-o a escolher entre ser aceito e defender aquilo em que acredita. O conflito torna-se mais forte quando atinge exatamente o lugar que o personagem tenta proteger.

5. Não explique tudo: deixe o espectador descobrir

Um dos erros mais comuns na construção de personagens é tentar explicar demais quem eles são. O cinema possui imagem, montagem, atuação, silêncio, espaço e som justamente para que nem toda informação precise chegar através do diálogo.

Parasita (2019), de Bong Joon-ho, é um ótimo exemplo. O filme não precisa interromper a narrativa para explicar detalhadamente a situação econômica da família Kim. Antes mesmo de conhecermos toda sua história, o apartamento semienterrado, a procura por sinal de Wi-Fi, o trabalho dobrando caixas de pizza e a maneira como os personagens observam a cidade já nos dizem muito sobre sua condição social.

O espaço torna-se caracterização. Isso continua durante todo o filme. A relação entre escadas, porões, janelas e diferentes níveis da cidade traduz visualmente as posições sociais dos personagens. Bong Joon-ho permite que o público descubra essas relações enquanto acompanha a narrativa, em vez de transformá-las em explicações verbais.

Para quem escreve cinema, a lição é especialmente importante: antes de fazer um personagem dizer quem ele é, pergunte se uma ação, um objeto, um ambiente, uma escolha ou um silêncio poderiam revelar a mesma informação de maneira mais cinematográfica.

Um bom personagem não precisa ser agradável, heroico ou extraordinário. Precisa produzir a sensação de que existe para além das páginas do roteiro. E isso acontece quando desejos, contradições, ambientes e escolhas começam a apontar para a mesma pessoa. Em narrativas audiovisuais, conhecer verdadeiramente um personagem não significa saber tudo sobre seu passado. Significa descobrir quem ele se torna quando precisa escolher e nenhuma das opções é fácil.