Um brasileiro na filmagem de “Passagem de Vênus” (1874)

A história do cinema costuma começar com nomes como os irmãos Lumière ou Thomas Edison. No entanto, antes mesmo da invenção oficial do cinema como o conhecemos, já existiam experiências que combinavam ciência, imagem e movimento. Entre elas, há um episódio pouco conhecido que envolve o Brasil: a participação do astrônomo Francisco Antônio de Almeida Júnior na captura do vídeo de 1 minuto chamado “Passagem de Vênus”.

 

A missão científica: registrar o trânsito de Vênus

Em 1874, cientistas do mundo inteiro se mobilizaram para observar um fenômeno raro: a Passagem de Vênus, quando o planeta cruza o disco solar visto da Terra. Esse evento era fundamental para cálculos astronômicos, como a distância entre a Terra e o Sol.

O astrônomo francês Jules Janssen desenvolveu um equipamento inovador para registrar o fenômeno: o chamado “revólver fotográfico” (photographic revolver). Inspirado no mecanismo de um revólver, o dispositivo capturava uma sequência rápida de imagens em um disco fotossensível, algo muito próximo do princípio do cinema. Essa tecnologia permitia, pela primeira vez, registrar o movimento de forma sequencial e analisável.

Na missão organizada no Brasil, mais especificamente em locais estratégicos de observação, participou o astrônomo carioca Francisco Antônio de Almeida Júnior, ligado ao Observatório Imperial do Rio de Janeiro. Sua função foi operar o equipamento fotográfico durante o fenômeno, garantindo que a sequência de imagens fosse registrada corretamente. Esse ponto é crucial: operar o revólver fotográfico exigia domínio técnico, precisão e compreensão do fenômeno. Não era apenas apertar um botão, mas controlar um processo complexo de captura de imagens em série.

 

Isso já era cinema?

O registro da Passagem de Vênus em 1874 não era um “filme” no sentido narrativo, mas já continha elementos fundamentais da linguagem cinematográfica:

  • Sequência de imagens em intervalos regulares
  • Registro do movimento
  • Intenção de análise visual posterior
  • Uso de tecnologia para capturar o tempo

 

Essas experiências dialogam diretamente com outros pioneiros, como Eadweard Muybridge (1878), com suas sequências de movimento de cavalos, Étienne-Jules Marey, que aperfeiçoou dispositivos de cronofotografia e os próprios irmãos Lumière, duas décadas depois. Ou seja, estamos diante de um momento de transição entre fotografia e cinema.

 

O “primeiro diretor de fotografia”?

A ideia de que Francisco Antônio de Almeida Júnior teria sido o “primeiro diretor de fotografia da história” é uma interpretação contemporânea — e mais simbólica do que literal. O termo diretor de fotografia (cinematographer) só surgiria anos depois, com a consolidação do cinema como linguagem narrativa. Em 1874, não existia essa função como a conhecemos hoje.

No entanto, é possível afirmar que ele operou um sistema de captura de imagens em sequência, trabalhou com controle técnico da imagem e participou de uma experiência pioneira de registro do movimento. Sob essa perspectiva, podemos dizer que ele ocupa um lugar proto-histórico da direção de fotografia — antes mesmo da existência formal da profissão.

 

Brasil na pré-história do cinema

Esse episódio também revela algo importante: o Brasil esteve presente em momentos iniciais da história da imagem em movimento. O Observatório Imperial, criado por Dom Pedro II, tinha forte conexão com a ciência internacional. O imperador, inclusive, era entusiasta da fotografia e manteve contato com inventores e cientistas da época. Essa inserção permitiu que o país participasse de experimentos avançados, como o da Passagem de Vênus.

Diferente do cinema narrativo que surgiria depois, essas primeiras imagens tinham objetivo científico. Ainda assim, elas já traziam questões que hoje são centrais na direção de fotografia: Como registrar o movimento? Como lidar com luz extrema (no caso, o Sol)? Como garantir precisão e legibilidade da imagem?

São problemas técnicos que continuam presentes, mesmo em contextos completamente diferentes.