Animais no set de filmagem

O uso de animais em produções audiovisuais envolve uma série de responsabilidades que vão além da encenação. Trata-se de uma prática que exige atenção simultânea a aspectos técnicos, éticos e legais, já que envolve seres vivos em um ambiente de trabalho que pode ser imprevisível, barulhento e estressante para os animais. Não há uma definição de carga horária diária de um animal no set de filmagem, que pode variar entre cada espécie. No entanto, é comum o uso de 8 horas para animais domésticos, respeitando os horários de alimentação e repouso.

Historicamente, o cinema utilizou animais de forma muitas vezes irresponsável. Com o tempo, denúncias e mudanças na legislação levaram à criação de protocolos mais rigorosos. Hoje, em muitos países, há regulamentações específicas e o acompanhamento de instituições como a American Humane Association (AHA), que há 80 anos certifica produções com o selo “No Animals Were Harmed” (“Nenhum animal foi ferido”).

No Brasil, o uso de animais em filmagens deve seguir normas de bem-estar e pode exigir autorização de órgãos como o IBAMA ou entidades estaduais e municipais de controle ambiental, dependendo da espécie e do contexto. Essas entidades de proteção geralmente exigem autorização prévia e acompanhamento de um médico-veterinário como responsável técnico para assegurar as condições adequadas de manejo, transporte, alimentação e ambientação. A legislação brasileira (Lei 14.064/2020) prevê punições de 2 a 5 anos, para maus-tratos, o que inclui situações de estresse extremo, exposição a risco ou negligência. Portanto, trabalhar com animais deve ser feito com responsabilidade legal acima de tudo.

 

Boas práticas no set

Para garantir a segurança dos animais e da equipe, algumas práticas são consideradas essenciais:

 

  • Presença de adestradores ou treinadores profissionais
  • Planejamento prévio das cenas com animais
  • Limitação do tempo de exposição no set (máximo 6h)
  • Condições adequadas de alimentação, hidratação e descanso
  • Monitoramento constante do comportamento do animal
  • Proibição de situações que envolvam risco físico ou estresse intenso

 

Essas medidas não apenas protegem o animal, mas também evitam atrasos, acidentes e problemas de produção. Animais não são objetos de cena. Eles têm comportamento próprio, podem se assustar, reagir de forma imprevisível ou simplesmente não executar o que foi planejado.

Entre os principais desafios estão a falta de controle total sobre a ação, a necessidade de múltiplas repetições, a adaptação do ritmo de filmagem e riscos à segurança da equipe. Por isso, cenas com animais exigem planejamento mais detalhado e, muitas vezes, maior tempo de execução.

 

Tecnologia como alternativa ética

Com o avanço dos efeitos visuais (VFX), muitas produções passaram a substituir animais reais por soluções digitais, especialmente em cenas de risco. Um exemplo emblemático é As Aventuras de Pi (2012), de Ang Lee. Embora tenha utilizado um tigre real como referência, grande parte das cenas foi realizada com modelagem digital, garantindo segurança tanto para o animal quanto para a equipe. Outros filmes contemporâneos seguem essa tendência, reduzindo a necessidade de exposição de animais a ambientes controlados ou potencialmente perigosos.

Do ponto de vista prático, o uso responsável de animais é também uma decisão estratégica. Produções que ignoram protocolos podem enfrentar problemas legais, interrupções de filmagem, danos à reputação e riscos físicos para equipe e elenco. Por outro lado, um set organizado, com profissionais capacitados e planejamento adequado, consegue integrar animais de forma segura e eficiente.

O cinema frequentemente busca representar o mundo real e os animais fazem parte dele. No entanto, representar não pode significar explorar. O uso consciente de animais no set exige equilíbrio entre intenção narrativa, viabilidade técnica e responsabilidade ética.