A sustentabilidade no set de filmagem
A produção audiovisual pode gerar um impacto ambiental significativo. O alto consumo de energia, o uso intensivo de materiais descartáveis, a construção efêmera de cenários e os constantes deslocamentos de equipe tornam o cinema uma atividade que exige atenção crescente às práticas sustentáveis.
Esse debate não é recente; no entanto, ele ganhou força significativa nas últimas décadas, sobretudo com a consolidação de protocolos internacionais voltados à sustentabilidade no audiovisual. Nesse contexto, iniciativas como o Green Film Shooting, na Europa, e o Green Production Guide, nos Estados Unidos, passaram a estabelecer diretrizes mais objetivas e mensuráveis para a redução de emissões de carbono, diminuição de desperdícios e mitigação do impacto ambiental das produções. Como consequência desse movimento, grandes estúdios e plataformas — como Netflix, Amazon Studios e Disney — passaram não apenas a adotar metas de sustentabilidade, mas também a incorporar relatórios de impacto e exigências ambientais em seus contratos e fluxos de produção.
No Brasil, por sua vez, embora esse processo ainda esteja em fase de consolidação, já é possível observar avanços relevantes. Nesse sentido, iniciativas como as desenvolvidas pelo SICAV (Sindicato da Indústria Audiovisual) e pela FIRJAN resultaram na criação de um guia de sustentabilidade específico para o setor, no qual são apresentadas diversas medidas práticas que podem ser implementadas pelas produções para reduzir seu impacto ambiental. Além disso, é importante destacar que, progressivamente, produtoras independentes, projetos viabilizados por editais públicos e coletivos audiovisuais também vêm incorporando práticas sustentáveis em seus processos. Dessa forma, o que antes aparecia como ações pontuais começa a se estruturar como uma política contínua de trabalho, integrada ao planejamento e à execução das produções.
A sustentabilidade no audiovisual não depende apenas de grandes investimentos. Ela se constrói a partir de decisões práticas integradas ao processo de produção. Entre as principais ações estão:
Redução de plástico descartável
Substituir copos e garrafas plásticas por itens reutilizáveis reduz drasticamente o volume de lixo diário. Algumas produções adotam kits individuais para cada membro da equipe.
Uso de iluminação eficiente
A substituição de refletores tradicionais por tecnologia LED reduz consumo de energia e emissão de calor no set. Diretores de fotografia contemporâneos já trabalham majoritariamente com esse tipo de equipamento.
Reaproveitamento de cenografia
Cenários podem ser reutilizados, adaptados ou armazenados para outras produções. Em alguns países, existem bancos de cenografia compartilhados entre produtoras.
Planejamento logístico
Organizar o plano de filmagem para evitar deslocamentos desnecessários reduz consumo de combustível e otimiza tempo. Agrupar cenas por locação é uma prática simples com grande impacto.
Gestão de resíduos
A implementação de coleta seletiva no set permite o correto descarte de materiais recicláveis. Algumas produções também adotam compostagem para resíduos orgânicos. Um ponto importante é que sustentabilidade não depende de orçamento alto. Pelo contrário: muitas práticas sustentáveis coincidem com práticas econômicas.
Exemplos viáveis são:
- Uso de garrafas reutilizáveis pela equipe
- Redução de impressões (uso de roteiros digitais)
- Compartilhamento de transporte entre equipe
- Aproveitamento de luz natural sempre que possível
- Reutilização de figurinos e objetos de cena
Essas decisões, além de reduzirem impacto ambiental, diminuem custos de produção. Pensar sustentabilidade no set é compreender que o cinema não se limita à tela. Ele envolve relações de trabalho, uso de recursos e impacto no território onde é produzido. Assim como a linguagem cinematográfica evolui, também evoluem as formas de produção. Produzir um filme hoje é, inevitavelmente, fazer escolhas — estéticas, narrativas e também ambientais.
