Coppola e a produção caótica de “Apocalypse Now”
“Apocalypse Now” (1979), co-roteirizado, produzido e dirigido por Francis Ford Coppola, é um dos maiores exemplos de como o processo de realização cinematográfica pode ser caótico, desorganizado e ainda resultar em algo genial. Coppola, já consagrado pelo sucesso de “O poderoso chefão”(1972), estava com moral em Hollywood e conseguiu 30 milhões para realizar esse novo e ambicioso projeto.
Ele acreditou na sua forma de contar a história, na sua capacidade de execução e acima de tudo: que o filme seria um sucesso. Mas chegar lá não foi nada fácil. O filme tratava da guerra do Vietnã, mas as filmagens aconteceram nas Filipinas enquanto o país ainda estava em guerra. Durante as filmagens, a equipe do filme ainda enfrentou outros grandes desafios:
- Tufões que destruíram cenários. Isso parou as gravações por 2 meses
- Reescritas constantes do roteiro e indecisões do diretor
- Problemas de saúde no elenco: Martin Sheen teve um princípio de infarto e ficou afastado por 2 meses
- Orçamento fora de controle: Coppola precisou hipotecar sua casa para terminar o filme que aumentava o custo a cada problema

Coppola nas bastidores de Apocalipse Now.
Direção como processo vivo
No documentário “Hearts of darkness: a filmmaker ‘s apocalypse” (1991) realizado por Eleanor Coppola, esposa do diretor, revela bem os bastidores desse caos. O filme mostra alguns processos e estratégias adotadas por Coppola na realização de Apocalipse Now. Descobrimos, por exemplo, que ele reescrevia o roteiro durante as próprias filmagens. Isso é até comum hoje em dia, mas pense comigo: uma guerra em andamento, num país diferente, com um idioma diferente, um cansaço acumulado das longas horas de filmagens e o stress absurdo com os inúmeros problemas. Como criar cenas, textos e diálogos em meio a tudo isso?
Outro ponto interessante foi a direção do elenco. Apesar de ensaios terem sido feitos na pré-produção, Coppola muitas vezes ensaiava e propunha ações novas ao elenco também no set de filmagem. Um método que ele usava era anotar os planos em cartões e distribuir para o elenco ter em mãos no set.
Outro exemplo impressionante é a cena em que Willard (Martin Sheen) está enlouquecido em seu quarto e começa a quebrar tudo. Ele corta sua mão de verdade mas não quis parar para se cuidar, pois a dor, o sangue e o corte trariam mais verdade. Antes dessa cena iniciar, Coppola sugeriu que Martin buscasse dentro dele o sentimento que seu personagem sentia, que compartilhasse dessa dor com ele, e não apenas vestisse uma máscara que não lhe cabia. Tal estratégia de direção é semelhante ao “Método” que a preparadora de elenco Fátima Toledo (Cidade de Deus) desenvolveu no Brasil décadas depois.

Outra curiosidade é que Marlon Brando chegou despreparado no set e segundo Coppola ele estava “acima do peso” desde a última vez que eles tinham se falado. O diretor diz que precisou dedicar um tempo para prepará-lo durante as filmagens. O peso do ator que incomodou Coppola e sua entrega dramática aquém levou o diretor a filmá-lo nas sombras, criando uma presença quase mítica para o personagem Kurtz. A solução estética nasceu de uma limitação prática e real de planejamento do filme (ou falta dele).
Coppola queria que o público sentisse a guerra e não apenas entendesse. Por isso: o som é imersivo, a montagem é fragmentada e a câmera é instável. Estudar e conhecer todo o processo de realização de um filme ajuda a entender que dirigir é acima de tudo a capacidade constante de tomar decisões sob pressão.

Apesar de todos os problemas, o projeto foi abraçado por diversos profissionais que acreditaram no filme, como o diretor de fotografia Vittorio Storaro, que já era bem conhecido. O amor, dedicação e entrega de Coppola geraram resultados incríveis. O longa, que teve um investimento de 30 milhões de dólares para realização, gerou um lucro de 150 milhões. O filme ganhou muitos prêmios, entre eles, o Palma De Ouro do Festival de Cannes (melhor filme), 2 Oscars (fotografia e som) e 3 Globo de Ouro (direção, ator coadjuvante e argumento original).
No final parece que tudo deu certo. Mas qual terá sido o impacto do processo nas vidas das pessoas que trabalharam no projeto? Devemos sempre lembrar que o preço de fazer um filme vai além do dinheiro, há ainda o custo físico, psicológico e emocional que a realização provoca na equipe.
Por isso, sempre planeje muito bem seu projeto!
